Várias são as divisões da história da
Parapsicologia. Apenas com a finalidade didática, utilizaremos a
classificação de Charles Richet (fisiologista francês, pesquisador da
Parapsicologia do início do séc. XX): a)Período Mítico (do início
dos tempos até 1778);b)Período Magnético (de 1778 a 1847); c)Período
Espiritista (de 1847 a 1872) e d)Período Científico (de 1872 aos dias
atuais).
a)Período Mítico (do início dos tempos até 1778):
Esse é o período mais amplo e difícil de ser estudado na história da
Parapsicologia, pois tudo o que dispomos são evidências. Ao parapsicólogo
cabe pinçar os possíveis fenômenos paranormais dos relatos,
ensinamentos e descrições obtidos nos documentos antigos ou nas lendas
e crenças então existentes. As religiões e o ocultismo são fontes
ricas de informação.
Aqui cabe uma observação importante: a Parapsicologia aborda os fenômenos
paranormais de forma científica, diferentemente das religiões e do
ocultismo. No entanto pode haver confusões no tocante às interpretações
dessas abordagens. Muitos utilizam a Parapsicologia como instrumento de
defesa e/ou divulgação de uma determinada religião ou crença, o que
é inadmissível... Ao parapsicólogo cabe estudar quaisquer religiões
ou crenças, mas não se envolve com doutrinas nem promove a fé...O
parapsicólogo quer conhecer fenômenos que possam interessar à
Parapsicologia, estudá-los e catalogá-los... Quanto à interpretação
que cada crença ou religião possue nada cabe ao cientista comentar.
Sobre esse assunto, Alfred Still nos lembra que a religião admite forças
extra-humanas e a elas sempre pede concessões (ex.:a oração); Já a
magia, o ocultismo, apesar de admitir a existência dessas forças
pretende dominá-las, usá-las em comando direto, domínio este obtido
pelo treino. Apesar das diferenças, ambas - religião e magia - aceitam
o homem como um acidente, pois as forças extra-humanas que as mesmas
admitem, existiriam independentemente do homem. E aqui está a diferença
fundamental entre Parapsicologia e religiões e/ou Ocultismo:
Parapsicologia é uma ciência humana. O homem é o centro da
fenomenologia paranormal, não sendo um mero acidente e, sim, o responsável
direto pela manifestação dos fenômenos.
Nesse contexto há muitas fontes de estudo da paranormalidade: usos e
costumes de povos antigos baseados nas descobertas antropológicas e
arqueológicas; Documentos e tradições das grandes religiões tais
como o Cristianismo, o Budismo, o Bramanismo, etc. e outras fontes.
b)Período Magnético (de 1778 a 1847):
O Período Magnético recebeu este nome graças a um médico vienense
chamado Franz Anton Mesmer. Ele acreditava existir um fluído universal
que podia curar. De acordo com Mesmer existe "uma influência mútua
entre os corpos celestes, a terra e os corpos animados". Esta influência
teria como agente de ligação o fluido universal que estaria, no corpo
humano, ligado aos nervos, em capacidade análoga aos imãs. Por esta
analogia é que o fluído de Mesmer ficou conhecido por Magnetismo e daí,
também, o nome de período Magnético.
Uma sessão típica de Mesmer: os presentes ("pacientes") ao
redor de uma bacia com água quando Mesmer chegava e, com sua varinha,
"magnetizava" a água. Os pacientes, ao tocarem a água
magnetizava, podiam entrar em estado de transe e, muitos, curavam-se
imediatamente de muitos males.
Parte da comunidade de médicos e estudiosos não aceitava a Teoria Magnética
de Mesmer o que deu origem a uma série de estudos sobre a Sugestão e o
Hipnotismo. Hoje em dia sabe-se que uma grande parcela de males físicos
pode ser sensivelmente melhorada (e, até mesmo, curada) pela sugestão
ou resolução de conflitos psicológicos.
A grande contribuição de Mesmer foi chamar a atenção para
determinados fenômenos de cura, antes legados à abordagens ocultistas,
e tentar dar a eles uma vestimenta "científica".
c)Período Espiritista (de 1847 a 1872):
O Espiritismo cresceu como religião após uma série de acontecimentos
que sugeriam uma intensa vida após a morte.O fato que detonou a grande
onda espiritista ocorreu em 1847 na pequena cidade de Hydesville, Estado
de Nova Iorque, nos EUA. Um pastor protestante, John Fox, com a esposa e
duas filhas, mudaram-se para uma casa daquela cidade, cujo local era
tido como "assombrado". Batidas inexplicáveis ocorriam nas
paredes da casa. As filhas do pastor passaram a se divertir com o fenômeno
e, por fim, estabeleceram um código: certo número de batidas
correspondia a determinada letra do alfabeto e, assim, sucessivamente,
numa correspondência biunívoca. Foi estabelecida, então, uma comunicação
com o suposto espírito. Após várias mensagens, o "espírito"
declarou que havia sido assassinado e enterrado no subsolo da casa. O
governo norte-americano enviou duas expedições de escavação: a
primeira nada encontrou e, tempos depois, uma segunda achou um esqueleto
ao lado de uma pasta que continha documentos pessoais de um certo
Charles Rossnan.
O caso das irmãs Fox detonou uma série de outros com características
semelhantes. Em 1857, o professor francês Denizard Rivail escreveu seu
famoso "Livro dos Espíritos". Esse livro, segundo Rivail,
fora "ditado" por espíritos. A si mesmo atribuiu o nome de
Allan Kardec, nome esse eternizado pela história do Espiritismo.
Cientistas da época estavam divididos em relação à causa dos fenômenos.
Muitos acreditavam no Espiritismo e até buscavam uma forma da Ciência
"reconhecer"o mundo espiritista. Já outros, céticos,
atribuiam os fenômenos a fraudes descaradas ou, no máximo, a
capacidades desconhecidas do ser humano que, não conhecendo as causas,
atribuía a supostos espíritos seus efeitos.
Período Científico ( de 1872 aos dias atuais):
A onda espiritista chamou a atenção de vários cientistas
famosos.Muitos deles estavam curiosos com as manifestações espíritas
e se aproximaram do estudo dos fenômenos paranormais com a finalidade
de - definitivamente - esclarecer se era uma grande fraude,se era uma
manifestação espiritual ou se era uma nova área de fenômenos
naturais, porém desconhecidos da Ciência.
A primeira grande investigação foi dirigida por Willian Crookes,
famoso físico inglês. Esta investigação chegou a conclusão que
diversos dos fenômenos chamados de "espíritas" realmente
existiam e mereciam ser investigados mais profundamente. Crookes
continuou com suas pesquisas, inclusive com uma médium - Florence Cook
- que era o epicentro de sessões ectoplásmicas.
Assim como Crookes, outros cientistas dedicaram-se às pesquisas
paranormais. Russel Wallace, Willian Barret, Henri Sidgwick, Myers,
Oliver Lodge, MacDugall e outros. Em 1882 foi fundada a tradicional
SPR-Society for Psychical Research,em Londres. Logo depois, em 1885,
fundou-se a SPR americana.
Inúmeros trabalhos surgiram como frutos das pesquisas empreendidas. Uns
defendiam o Espiritismo, outros condenavam.Um dos grandes expoentes
dessa época foi o fisiologista francês Charles Richet, autor do famoso
"Tratado de Metapsíquica ".
O grande problema das pesquisas da época estava no método. Todas as
pesquisas eram qualitativas. Não levavam em conta a repetição dos
experimentos, pois os fenômenos são de caráter fugidio, impossíveis
de serem reproduzidos à vontade. A comunidade científica começou a
entender que o sucesso da Parapsicologia como ciência dependeria -
necessariamente - de novos métodos que a aproximassem mais das outras
ciências. Várias tentativas foram realizadas para sistematizar os
experimentos, mas, em sua maioria, fracassaram.
A partir de 1930, o Laboratório de Parapsicologia da Universidade de
Duke, nos EUA, sob a coordenação de Joseph Banks Rhine, passou a
realizar uma série de experimentos baseados em princípios estatísticos.
As mais famosas experiências foram realizadas com o baralho Zener. Este
baralho é composto de 25 cartas, com cinco diferentes símbolos (ou
seja, cinco cartas de cada tipo). Os símbolos são: ondas, estrela,
quadrado, cruz e círculo. após misturar aleatoriamente as cartas, os
testes procuram avaliar a capacidade de percepção extra-sensorial dos
avaliados.
As experiências em Duke conseguiram aproximar a Parapsicologia das
demais ciências. No Congresso de Utrecht, em 1953, a Parapsicologia foi
coroada como Ciência.
REFERÊNCIAS:
AMADOU,
Robert. Parapsicologia.São Paulo:Ed. Mestre Jou, 1966.
STILL,
Alfred. Nas Fronteiras da Ciência e da Parapsicologia. 2a.ed. São
Paulo: IBRASA, 1968.
SUDRE,
René. Tratado de Parapsicologia.2a. ed.Rio de Janeiro:
Zahar Editores, 1976.